
Caro Senhor ENEM,
Admiro sua coragem de lutar diante de tantos: mas se... se fosse assim... Mas não consegue... diante de tantos questionamentos, sua teima em sobreviver, diante de um desânimo coletivo para as mudanças, antes mesmo de vivê-las, é muito forte e mostra a sua resistência para lutar. Sei que até aqueles que discursavam em favor das mudanças, quando o Senhor chegou de verdade, recuaram. Sei o quanto o Senhor fica acuado diante dessas pressões.
Penso que querem nomeá-lo “salvador da pátria”, resolver de vez problemas socioeconômicos, dar condições financeiras aos estudantes, resolver o problema da escola básica, fortalecer o ensino publico etc. O que menos percebo nos discursos é uma discussão fundamentada na base de valor pedagógico que o Senhor confere ao funil seletivo do vestibular.
Sei que o Senhor ainda está tateando frente aos mecanismos fortemente alimentados por longas décadas, praticados já de olhos fechados, com direito a reprises de apostilas, a estatísticas de questões que orientam a base curricular do “que é dado”, a conteúdos tão específicos que só mesmo os cientistas dominam, a preparações em cursos para enfrentar e sobreviver ao combate, enfim, uma cadeia de práticas já enraizadas em nós.
O Senhor padece dos rótulos, análises e pessimismos que todo ator de mudança se reveste. Imagine, Senhor ENEM, o Senhor querer alterar a rota do que está posto, é de se esperar uma reação fortemente resignada e embasada pelo discurso do impossível: ou muda tudo ou não dará certo. Para que mudar, se continua seletivo. O site não funciona, as provas não têm segurança. Parece, por vezes, que o Senhor Vestibular é uma maravilha, um oásis.
Será que a coletividade social desconhece o atual sistema, nunca acompanhou um jovem, nem ouviu falar sobre o assunto, nem leu sobre suas dificuldades e do seu poder de comando? A verdade é que todos nós sabemos das dificuldades do atual sistema, a questão que se apresenta é nosso medo diante do desconhecido. Mudança traz resistência, resistência para absorver tantas informações e ainda por cima operacionalizá-las. Poxa, o bacana é ver que com menores pretensões, com sua cara de pouca mudança, com seus limites de acesso a todos, o Senhor traz o legado da transformação que revitaliza, que inquieta, que é exigente e rejuvenesce a educação. É uma só ousadia no campo das ideias, é trazer para o centro do processo o pedagógico.
Caro guerreiro, seja bravo e forte, resista, viva para tentar, nem precisa alterar tanto, se o Senhor resgatar o espírito educacional para dentro de todos os níveis da escolaridade, substituindo o chavão “mas caí no vestibular” por isso tem que dá esse conteúdo. Se precisarmos começar de novo, começar apenas mudando o significado pedagógico do que se pergunta e para quem se pergunta e conseguir inserir contexto, reflexão e abrangência em todas as áreas, que mudança significativa teremos.
Continuo compartilhando da determinação e do desejo para o Senhor acontecer de fato e de direito, valorizando o saber, abrindo uma nova esfera no pensamento pedagógico que impera pela voz: tem que contextualizar, pois é isso que caí no vestibular, assim se poderá salvar milhões de mentes da coisificação e de memorizações efêmeras. Para mim, é isso que confere valor a todo esse processo, o sentido pedagógico implícito na prova do Senhor ENEM.